
Por Sandra Campos
Toda mulher que sonha em ser mãe se prepara com carinho: são nove meses de expectativa, a escolha das roupinhas, o preparo do quartinho e a aceitação das transformações do próprio corpo, vividas com amor e esperança. O sonho parece tomar forma quando o bebê chega ao mundo. Mas, em alguns casos, essa mãe descobre que seu filho não será apenas uma criança a ser guiada até a autonomia, e sim um ser eternamente dependente dela para as necessidades mais básicas da vida. E, ainda assim, ela o ama incondicionalmente, protegendo-o dos males do mundo.
Com o tempo, porém, a realidade da maternidade atípica revela que não se trata apenas de amor. Trata-se também de noites sem dormir, de consultas médicas intermináveis, de olhares de julgamento, de portas que se fecham e de uma solidão que só quem vive pode compreender. O filho cresce, mas as demandas crescem junto com ele. Não é apenas cuidar: é lutar diariamente contra um sistema que não acolhe, contra escolas despreparadas, contra a falta de inclusão no trabalho e contra o medo angustiante de quem estará ao lado dele quando ela não puder mais estar.
Muitas vezes, essa luta é solitária. Foi o caso da inglesa **Shirley Nunn**, de 67 anos, que cuidou sozinha do filho **Steven**, de 50, após perder o marido para o câncer. Quando Steven tinha apenas 11 anos, sofreu um acidente que lhe causou graves danos cerebrais. Ele foi diagnosticado com paralisia cerebral e epilepsia, além de enfrentar dificuldades de aprendizagem, problemas de mobilidade e controle emocional, o que o tornou incapaz de viver de forma independente.
Tudo que Steven tinha era sua mãe. Mesmo após ser diagnosticada com câncer terminal, Shirley continuou cuidando dele com dedicação. Porém, quando a doença se espalhou para o cérebro, a coluna e a pelve, ela foi liberada para passar seus últimos dias em casa. Mais do que sua própria saúde debilitada, sua maior angústia era: Quem cuidará de Steven quando eu não estiver mais aqui? No auge do desespero, Shirley tomou a decisão mais dolorosa: tirou a própria vida e a do filho. Não por falta de amor, mas justamente por amor — pelo pavor de vê-lo abandonado à própria sorte. Até onde vai o amor e o desespero de uma mãe sem apoio do poder público? Quantas “Shirleys” estão vivendo esse dilema neste exato momento?
Neste Setembro Amarelo, uma campanha mundialmente conhecida, quando o mês de setembro é dedicado à conscientização sobre a prevenção do suicídio, urge falar sobre isso. Segundo a psicóloga Ana Carolina Sampaio, mães atípicas vivem sob estresse contínuo, marcado pela incerteza do futuro dos filhos. A sobrecarga, a solidão e o medo de não estar mais presente adoecem profundamente — embora raramente apareçam nas fotos sorridentes das redes sociais.
Dados da National Alliance for Caregiving (instituição localizada em Washigton D.C.) revelam que mais de 60% dos cuidadores familiares relatam sintomas de ansiedade e depressão, muitos deles em silêncio, sem pedir ajuda. É necessário oferecer redes de apoio e construir políticas públicas que garantam que nenhuma mãe precise escolher entre amor e desespero.
Infelizmente, o tema do suicídio ganha visibilidade apenas em setembro. Mas a dor não tem data. Eu sei disso de perto: perdi meu filho, Diego Wendell, aos 24 anos, para o suicídio. Talvez, se eu tivesse tido mais conhecimento sobre essa epidemia silenciosa, pudesse ter feito algo.
Sandra Campos é empresária e ativista pela vida – Instagram: @sandracamposaaa