Paraná Espanhol: História esquecida no Sul

“Hola, ¿cómo estás?”. Esse era o cumprimento mais ouvido no Paraná durante o período colonial, quando a presença espanhola moldou costumes, tradições e até a forma como os habitantes da região se relacionavam no dia a dia.

Pouca gente sabe, mas praticamente todo o Paraná, Santa Catarina e o Rio Grande do Sul pertenciam à Coroa Espanhola. Devido à divisão territorial estabelecida pelo Tratado de Tordesilhas, toda a região oeste do atual Paraná estava sob domínio espanhol. Essa influência não se limitava apenas à posse territorial: ela também deixou marcas na cultura, na língua e na forma como o território foi ocupado.

A primeira cidade fundada foi Ontiveros, às margens do Rio Paraná. Logo depois surgiu Ciudad Real del Guaíra, que chegou a ser considerada uma das mais importantes povoações espanholas na América do Sul no século XVI. Já em 1570, foi criada Villa Rica del Espíritu Santo. Em razão de doenças e pestes, em 1589 a cidade foi transferida para a região de Fênix, no centro do estado, onde ruínas e vestígios ainda despertam o interesse de historiadores e arqueólogos. Esses núcleos urbanos eram pontos estratégicos de defesa e de ligação entre o interior do continente e as regiões controladas pela Espanha.

Com o tempo, as disputas de território se intensificaram. A investida dos bandeirantes de São Paulo decretou o fim do chamado Paraná Espanhol no século XVII. As missões espanholas foram atacadas, e os colonos e indígenas que viviam sob a influência da Coroa tiveram de abandonar seus povoados. Essa fase marcou o desaparecimento de uma presença espanhola organizada, mas não apagou totalmente o legado deixado no estado.

Hoje, cerca de 10 mil espanhóis natos vivem no Paraná, e sua influência cultural é evidente. O Centro Espanhol do Paraná mantém vivas as danças, o folclore e o idioma, promovendo eventos que reúnem descendentes e simpatizantes dessa tradição. Festas típicas, apresentações de flamenco e encontros culturais ajudam a resgatar a memória de um tempo em que o espanhol era a língua dominante da região.

Na gastronomia, as receitas tradicionais seguem sendo transmitidas com carinho — seja uma paella bem temperada, churros fritos no ponto ou a ensaimada feita como na Espanha. Muitos avós ainda ensinam filhos e netos a preparar esses pratos em família, garantindo que a herança cultural continue presente à mesa dos paranaenses.

A fama dos espanhóis no manuseio de pedras e granitos também deixou marcas visíveis. Grandes obras da capital, como o Palácio do Governo, a Biblioteca Pública, o Tribunal de Contas e o Teatro Guaíra, refletem esse legado de qualidade na construção. O calçamento original da Praça da Espanha, no bairro Bigorrilho, é outro exemplo simbólico de como a presença espanhola se perpetuou. O espaço hoje é ponto de encontro cultural e uma homenagem à nação que ajudou a escrever parte da história do Paraná.

O chamado “Paraná Espanhol” pode não ser lembrado por todos, mas suas marcas permanecem vivas no sotaque, na culinária, na arquitetura e nas tradições que ainda resistem. Resgatar essa história é também valorizar a diversidade cultural que moldou o estado e que segue fazendo parte da identidade paranaense.