Por Sandra Campos

Feche os olhos e sinta a memória: a mão fresca na sua testa queimando em febre de madrugada, a voz mansa acalmando o medo do escuro.
Na infância, achamos que mãe não chora, não cansa, não sente fome. No almoço, ela dizia que preferia a asa do frango, que já tinha comido na panela ou que não gostava do doce. E a gente acreditava. Pareciam seres de ferro, moldados apenas para nos proteger.
Mas o tempo é um sopro veloz. Num instante somos nós ralando o joelho em busca de colo; no seguinte, a vida nos senta do outro lado da mesa. Quando minha filha tinha seis anos sentada à minha frente, me peguei repetindo os mesmos gestos e as mesmas renúncias silenciosas. Ao olhar nos olhos dela, uma lágrima pesada caiu: compreendi tudo o que minha mãe calou e entregou por mim.
Ser mãe é essa doação invisível. É passar a noite em claro vigiando o peito que respira curto, comemorar o primeiro passo e o primeiro dentinho, mas também sentir a alma se rasgar ao ver o filho chorar de dor.
Quantas vezes sangramos por dentro com respostas duras e ingratidões da mocidade, mas engolimos o choro e abrimos os braços no segundo seguinte? O colo de mãe perdoa antes mesmo de a palavra de desculpas nascer. A gente se anula para que eles tenham tudo.
Se a sua mãe ainda está aqui, pare tudo agora. Não espere uma data festiva. Vá até ela, segure essas mãos cansadas de tanto doar a vida, beije esse rosto e diga com a alma: “Obrigado, eu te amo”. As cadeiras da mesa ficam vazias de repente, e nada pesa mais no coração do que o abraço que deixamos de dar a quem nos deu a vida.
Sobre a Autora: Eu, Sandra Campos, perdi meu filho de 24 anos para o suicídio. Transformei a dor em propósito e hoje sou ativista pela vida no projeto “Não te julgo, te ajudo!”, oferecendo acolhimento e escuta amiga. Não passe por esse peso sozinho. WhatsApp: (11) 94813-7799 | Instagram: @sandracamposa_